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Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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06
Fev15

5 razões para as urgências hospitalares andarem longe da perfeição


Sofia Serrano


Em pleno inverno, e em altura de pico da gripe, as notícias de caos nas urgências hospitalares sucedem-se. Horas infindáveis de espera, incapacidade de dar resposta, profissionais e utentes descontentes. Os políticos responsáveis pela saúde dizem que está tudo bem e melhor que há alguns anos atrás, os políticos que gostavam de ser responsáveis pela saúde argumentam que está tudo cada vez pior.
Na perspectiva de quem trabalha semanalmente num serviço de urgência (às vezes duas vezes durante a semana), há claramente razões para que o funcionamento das mesmas ande longe da perfeição:

1. Falta de recursos humanos.


Nao vale a pena atirar areia para os olhos: médicos, enfermeiros e auxiliares são menos que há alguns anos. A política de contenção levou a que não se renovassem contratos, e as equipas de urgência estão desfalcadas. Houve muita gente a pedir reforma antecipada, outros optaram por sair do país. Também temos de contar com o facto de a partir dos 50 anos ser possível deixar de fazer trabalho nocturno, e a partir dos 55 anos os médicos poderem mesmo deixar de prestar serviço de urgência. E depois temos pouca gente a fazer o trabalho de muita, e a exaustão instala-se, com repercussão no trabalho – e na saúde das pessoas (utentes e profissionais).

2. Falta de material.

Mais outro assunto tabu, que às tantas ninguém confirma nem desmente, com medo de represálias. A verdade é que há inúmeros casos relatados por todo o país de escassez de material básico, como luvas, gel, resguardos para as marquesas ou papel e toners para as impressoras. Podem faltar vacinas ou reagentes para fazer determinadas análises. A ideia principal é a contenção, por isso o investimento em material para que nunca falte parece ser coisa do passado. É claro que os fornecedores só entregam depois do pagamento, o que torna o dia a dia na urgência numa estratégia de gestão de quem lá está, com o que efectivamente há disponível para o diagnóstico e tratamento dos doentes.

3. Falta de recursos nos cuidados primários de saúde – os Centros de Saúde

Mais de um milhão de portugueses não têm médico de família. Ora o médico de família é fundamental no bem-estar de toda uma família, vigiando a saúde, prevenindo a doença. É no Centro de Saúde que se devem fazer rastreios e despistes de inúmeras doenças e incentivar uma vida saudável. Se não temos médico de família, então tudo se desmorona pela base – e vamos ter, com certeza mais pessoas doentes, e mais recurso ao serviço de urgência e hospitais.

4. Falta de condições sócio-económicas para sobreviver ao Inverno (e ao dia-a-dia)

Lembramo-nos sempre da Troika cada vez que se pensa em contenção e crise. O que é facto é que temos todos menos dinheiro para aquecer as casas, para alimentos saudáveis, para ir regularmente ao médico. E se pensarmos nos milhares de idosos que vivem sozinhos e não têm condições, por exemplo, para aquecer a casa perante temperaturas muito baixas, então temos de pensar que a probabilidade de adoecerem é muito elevada. E por isso, vão recorrer inúmeras vezes aos serviços de urgência.

5. Falta de informação da população

Quem trabalha numa urgência constata que uma percentagem assustadoramente elevada de doentes que lá recorrem não têm um motivo urgente para ser vistos. Muitas das vezes têm um determinado problema há meses, e por não terem médico de família acabam por recorrer ao hospital. Ou querem fazer um teste de gravidez. Ou mil-e-uma-outras-razões que têm pouco de urgente, e que implica que esperem horas, porque a triagem vai dar prioridade às situações efectivamente urgentes. Claro que todos os doentes acabam por ser vistos, porque até se ter o diagnóstico final, não podemos rotular de “situação não urgente”, mas muitos evitariam estar ali horas há espera se soubessem que é fundamental recorrer primeiro ao médico de família – e ele sim, se constatar que é uma situação urgente, referencia para o hospital ou para onde achar adequado.

Mas provavelmente já toda a gente sabe destes pontos anteriores. 

E aposto que muitos experts em gestão já se debruçaram sobre o problema, na tentativa de o resolver. O que é facto é que o cenário não é bonito. E é preciso arregaçar as mangas e fabricar soluções, porque Portugal tem dos melhores serviços nacionais de saúde a nível mundial – e não o queremos estragar.

(esta crónica e outras aqui)






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