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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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Café, Canela & Chocolate

10
Jan15

7 coisas que é preciso ter para se ser médico


Sofia Serrano

                                         

Não sei se escolher ser médico tem a ver com a vocação ou se é simplesmente uma opção, que pode estar relacionada com mil-e-um motivos, desde o económico ( que não é, nem de longe, nem de perto a remuneração que sonhámos) ao facto de ainda ser um dos poucos trabalhos que tem garantido emprego no nosso país (este último ponto em mudança acelerada). Mas independentemente do que nos leva a medicina, há certas características que precisamos de ter (ou cultivar) para sobreviver neste complexo mundo dos hospitais, clínicas e centros de saúde:

1. Desprendimento de horários. 
Um médico tem como todos os profissionais, um horário estabelecido, é controlado nos dias que correm pelo fantástico ponto digital. Em média fará 40 horas por semana, mas isto varia de acordo com as horas extraordinárias que precisa de fazer em contexto de urgência. Mas não só. Os médicos sabem que é quase impossível seguir um horário à risca. Imagine-se um cirurgião, cuja cirurgia era mais complexa que se imaginava à partida: não pode chegar às 17h, como o técnico da repartição das finanças e dizer “Meus amigos, por hoje acabamos. É impossível atender mais gente, amanhã continuamos”. O cirurgião não vai sair para ir picar o ponto, e muito menos pode abandonar o bloco operatório. O cirurgião tem de continuar, até a situação estar controlada e o doente tratado. E pode ser necessário ficar mais duas horas a operar, ter de pedir para lhe ligarem à escola dos filhos a avisar que vai chegar mais tarde ou que não vai conseguir chegar a tempo ao jantar com os amigos que estava combinado há meses.

2. Resistência física. 
Ser médico é muito mais que ficar sentado atrás de uma secretaria. É preciso estar em forma, porque há urgências que significam saltar da cadeira e subir dois pisos a correr, para ir responder a uma paragem cardio-respiratória no serviço de Medicina. É preciso passar horas em pé no bloco operatório, a segurar um afastador, para o colega poder completar aquela cirurgia complexa. É preciso aguentar 24 horas de urgência, entre cesarianas, partos e cirurgias, e estar no seu melhor quando está quase na altura da sua saída e é preciso ajudar um bebé a nascer com o auxílio de uma ventosa. 

3. Dieta (forçada) constante. 
Cada vez mais o médico é pressionado para aumentar a sua produtividade. E quando antes via 5 doentes numa manhã, com tempo para fazer uma boa história clínica e um exame objectivo cuidado, agora tem de fazer 20 no mesmo período de tempo. Portanto, ou quase não vê os doentes, ou tem de abdicar das suas necessidades básicas – como ir à casa de banho ou fazer uma refeição- para ganhar tempo e poder continuar a fazer um bom trabalho. Por isso, não tem tempo para comer a meio da manhã, salta o almoço ou come uma sopa à pressa para não se atrasar para as actividades da tarde.

4. Tolerância e empatia. 
Apesar das condições de trabalho serem complicadas e de ter de arranjar soluções para os problemas que vão surgindo, o médico tem frequentemente reclamações. E queixas. Doentes exaltados, aos gritos, que já esperaram 5, 10, 20 horas num serviço de urgência. Que acham que a sua situação é prioritária. Que se queixam do espaço físico. Que não podem chegar atrasados ao trabalho e exigem que sejam resolvidos os seus problemas. O médico tem de ter capacidade de respirar fundo, e explicar a razão dos atrasos, ou da falta de material, ou de tempos operatórios. Tem de se manter calmo, e tentar compreender o outro lado, apesar de muitas vezes ter vontade de se exaltar também. Tem de fazer o melhor que pode e tentar fazer passar essa mensagem – e continuar.

5. Insight. 
O médico tem de ter aquela capacidade quase mágica de olhar para uma situação é conseguir lê-la, que é como quem diz, saber o que o doente tem pouco depois de se ter sentado na cadeira do consultório. No fundo, o médico tem de desenvolver a sua intuição, fundamentada em tudo o que vai estudando, aperfeiçoada pelo seu trabalho diário. E saber resolver a situação o mais rapidamente possível.

6. Espírito de sacrifício. 
É impossível ir para Medicina se não se estiver disposto a abdicar de algumas coisas, em prol dos doentes. Podem ser férias, porque não há mais ninguém para fazer urgências em Agosto, pode ser a festa de fim de ano dos filhos, porque a cirurgia demorou mais que o previsto, podem ser noites de sono no conforto do lar, porque é preciso que alguém veja doentes à noite, porque ninguém escolhe horas para adoecer. 

7. Paixão. 
Acima de tudo, é preciso gostar do que se faz. Amar. Sentir que é aquilo que queremos fazer para o resto da vida, caso contrário, todos os pontos anteriores terão sido em vão. E ter a noção que, afinal, os médicos até são mal pagos, por isso, temos de ser felizes com a sensação que fazemos coisas boas todos os dias.



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