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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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01
Nov15

Carta ao SNS


Sofia Serrano

Querido Serviço Nacional de Saúde,

 

Gostava de começar esta carta por um "espero que te encontres bem". Porém, parece-me que não seria muito apropriado.

Isto porque sei que já foste um SNS de excelência, mas agora, de facto, não te encontras bem.

Não sei bem em que altura começou, mas a verdade é que as coisas foram mudando, lentamente. Era um orgulho para todos vestirmos a tua camisola e fazermos parte deste projecto de levar a saúde a todos, mas as coisas mudaram.

Talvez tenha sido a crise. Talvez tenha sido a má gestão. Talvez o aparecimento de hospitais privados, os seguros. Não sei.

O que é facto é que nos últimos anos, algo muito dramático tem acontecido. O tempo que se espera para uma consulta aumentou assustadoramente. As listas para cirurgias são infindáveis. As faltas de material acontecem todos os dias em todo o lado. As taxas moderadoras vão aumentando. Não há verbas para investigação, a formação dos mais novos é deixada para trás. Há poucos enfermeiros, há poucos médicos. Faltam anestesistas, faltam cirurgiões, faltam obstetras, faltam ortopedistas e tantos outros, em particular nas zonas mais periféricas do país. Há muito trabalho e pouca gente, e por isso a exaustão é permanente. E profissionais de saúde exaustos não podem desempenhar as suas funções na perfeição, como se espera deles.

Mas as administrações insistem. Insistem que é preciso fazer vários turnos de 24 horas por semana. Insistem que é preciso continuar a trabalhar no dia seguinte, após uma urgência nocturna (ou de 24h). Insistem que mesmo quando não há locais para descanso, condições para os profissionais de saúde tomarem banho, material para trabalhar como luvas ou papel, é preciso continuar. Mais de 24 horas, muitas vezes, repetidamente.

E na verdade, querido SNS, o que tem acontecido vai-se agravando cada vez mais. Porque poucos conseguem trabalhar nestas condições. Os que podem acabam por rumar para outros países, com melhores condições de trabalho, melhores condições de vida. Com tempo para os doentes, tempo para a família, horas para descansar, como devia ser obrigatório por aqui. E nesses outros países sabem que os profissionais de saúde formados no nosso país são excelentes, e recebem-nos de braços abertos. Outros optam por unidades privadas, porque não conseguem mais trabalhar nas condições dos hospitais públicos.

Os que ficam, e que ainda sustêm este SNS dão tudo o que têm, mas precisam de mais. Não vão aguentar muito mais tempo. Precisam de respeito, de condições de trabalho. Precisam de uma remuneração adequada. Precisam de descansar para poderem trabalhar. Precisam de novos líderes, de novas políticas de saúde. 

Por isso, querido SNS, desejo que melhores. Que não deixes de ser um dos melhores do mundo. Mas neste momento, o prognóstico é reservado. E parece-me que os tratamentos para a tua condição são ainda todos experimentais.

 

Uma médica

 

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