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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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08
Jul15

Confissões de uma médica #3


Sofia Serrano

AObstetrícia é uma especialidade fantástica: é maravilhoso perceber que háuma espécie de magia que transforma duas células num ser vivo, e poderacompanhar esse processo até ao momento do nascimento. Adoro Obstetrícia egosto do cheiro a bebés que reina na enfermaria, no facto de termos maioritariamentemães e bebés saudáveis, e de ser uma especialidade cheia de coisas boase finais felizes.

Masé também uma especialidade onde tudo muda num segundo. 

Onde um desfechoperfeito se pode tornar numa tragédia em poucos instantes. E quando as coisascorrem mal, é um verdadeiro drama, porque podemos ter duas vidas em risco - eninguém está preparado para perder mães ou bebés, ou ambos.
Oque a maioria das mulheres não sabe é que engravidar significa correr riscos -porque há mil e uma complicações possíveis e desfechos adversos. Felizmente, opróprio estado de grávida torna as mulheres mais despreocupadas e relaxadas,pelas próprias hormonas da gravidez, e por isso acreditamos que as coisascorrem bem.
Omeu lema diário de trabalho é exactamente esse - que tudo vai correr bem. E quenunca podemos facilitar, porque em Obstetrícia há muito em risco.

Mashá situações imprevisíveis. Coisas que nos fogem ao controlo. 
E a morte é algo quefica entranhado em nós.

Osmédicos não são de ferro. Muitas vezes parecem, mas não são. Quando o pior acontece, é muito, muito difícil. Sentimos-nos impotentes.
Umadas coisas boas de sermos médicos é termos uma sensação de controlo sobre assituações. Pelo menos, é o que nos parece. Gostamos de ter respostas para osproblemas, medicamentos para curar doenças, cirurgias que resolvem casoscomplicados. Não é fácil quando as coisas fogem do nosso controlo.
Duranteo internato de Ginecologia e Obstetrícia, e nas outras especialidades, somostreinados para ter tudo sob controlo, para resolver da maneira certa, seguindoprotocolos, agindo de forma estereotipada. Está perfeitamente determinado ecomprovado por uma série de estudos científicos o que se deve fazer peranteaqueles sintomas, qual a atitude terapêutica adequada, qual o prognóstico. Mas istonem sempre resulta em medicina. Cada um de nós é um ser individual, complexo,com características próprias. Apesar da medicação X ser a ideal para umdeterminado tratamento, uma determinada pessoa pode ter uma reacção totalmenteoposta, pelas suas características individuais. E é complicado quando corretudo fora do que estamos à espera.
Mas é preciso continuar, e dar sempre o nosso melhor.






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