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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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30
Jul15

Confissões de uma médica #4


Sofia Serrano

Decidir ter filhos não é uma decisão fácil.

 

Nunca é o momento ideal. Muito menos quando estamos a falar de quando se é interna de uma especialidade exigente como Ginecologia e Obstetrícia. Ouvia de forma recorrente “nem penses em engravidar! Depois como é que tens tempo para o internato?”. Não está contemplado no programa da especialidade tempo para engravidar. Está previsto licença para um doutoramento, ou a possibilidade de acumular funções académicas, mas maternidade nem pensar.

Parece impensável para muitos dos médicos mais velhos que os filhos se possam intrometer na nossa formação. E isto faz com que eu e as outras internas pensemos nisto, e frequentemente adiemos a decisão de dar esse passo tão importante. Passamos frequentemente muito mais do que 40 horas por semana no hospital, dormimos muitas noites fora de casa, temos (quase) todo o tempo livre subitamente ocupado com trabalhos e estudo. Ocupado com os nossos doente, porque queremos

dar o nosso melhor.

Então e nós? E o nosso direito de termos a nossa família e sermos felizes?

Nunca pensei em ser uma mãe idosa - que em linguagem obstétrica começa a ser acima dos 35 anos. A partir desta altura, está fisiologicamente demonstrado que as mulheres têm mais dificuldade em engravidar, e as probabilidades diminuem à medida que avançam os anos.

Por isso, houve uma altura em que resolvi arriscar. Resolvemos. Felizmente tenho alguém ao meu lado que sabe que amo esta profissão exigente e que está disposto a responder a este desafio de me acompanhar numa das maiores aventuras de sempre: sermos pais.

Engravidei a primeira vez no 2º ano do internato, com 28 anos – para uns cedo demais, para as estatísticas nacionais cada vez mais tarde. Suspeito que o meu orientador pensou que eu ia arruinar a minha formação, deitar tudo a perder. Mas eu tinha outra ideia: a de conseguir fazer tudo. Sim, ser interna era um desafio, ser mãe também. Eu queria superar os dois. Ia ser difícil, mas eu ia conseguir. Pelo menos ia tentar, e depois logo se via. Tinha medo de esperar e depois arrepender-me. Lembro-me de ter ficado assustada quando comecei a fazer a consulta de infertilidade e via tanta gente da minha idade ou mais novos com dificuldade numa coisa que entendemos que deve ser natural. E custa muito perceber porque é que calha a uns e não a outros esta coisa de conseguirmos ter filhos. Quase vinte porcento dos casais a nível mundial têm problemas de fertilidade, o que é um número espantosamente elevado. Muitos factores contribuem seguramente para estes números, desde doenças como a endometriose, a problemas na ovulação, alterações nos espermatozoides e outros, mas adiar a maternidade não ajuda.

E se eu tivesse algum problema e não conseguisse? Se não conseguíssemos? Se tivéssemos pela frente anos de exames, estudos, tratamentos? Era mais uma razão para não adiar.

Em retrospectiva, engravidar foi das melhores coisas que fiz – obviamente que os meus filhos são o melhor do mundo, mas falo também na perspectiva de Ginecologista-obstetra. Podemos ler e saber tudo sobre os sinais e sintomas da gravidez, os exames a pedir, as patologias da gravidez e o parto. Mas é completamente diferente experimentar tudo isso. Repentinamente, vi-me projetada para o lugar da grávida que eu habitualmente seguia. Experimentei as flutuações de humor, as modificações do corpo, os enjoos. O ouvir a primeira vez o coração de um ser que fomos nós que magicamente criamos, o sentir os primeiros movimentos. A barriga a crescer. O desconforto, o não ter posição. As contrações, o medo do parto.

Depois de passar por toda a experiência da gravidez e parto, sinto que me tornei melhor médica. Que posso ser melhor (para além da parte teórica dos livros), porque subitamente, eu e as minhas pacientes temos um elo de ligação, uma experiência em comum.

Apesar de tudo o que se diz em prol da maternidade, e do incentivo à natalidade, sabemos que anunciar uma gravidez no local de trabalho equivale a um sismo de 6,9 na escala de Richter. Que a trabalhadora grávida vai ter de faltar para ser acompanhada nas consultas e fazer exames. Que vai ter de tirar licença nos primeiros meses do bebé e amamentar. Que vai faltar quando os filhos estão doentes.

Por isso, desde o aparecimento daqueles 2 tracinhos no teste de gravidez, que a alegria de sermos mães se mistura com a hipótese muito provável de sermos aquela a quem não renovam o contrato. Ou que não é escolhida para aquele cargo de chefia com responsabilidade, porque acham que não vamos conseguir dar conta da família e da responsabilidade laboral.

E sabemos que diariamente há uma pressão extrema de produtividade, quase bullying laboral, com exigência para fazermos horas extraordinárias para as quais poderíamos dizer não, mas que aceitamos fazer com receio de ficar desempregadas. E se explicamos que temos filhos a nosso cuidado e não conseguimos fazer aquele trabalho extra que nos propõem, somos ameaçadas com um "Olhe que não estamos interessados em fazer contrato com quem não tem disponibilidade total". Sim, isto tudo acontece. Em todas as profissões, incluindo a minha. Muitas vezes até acho que os médicos são menos tolerantes ainda com as grávidas, porque acham que na medicina não há lugar para falhas – e parar pela gravidez e por um filho equivale a deixar em suspenso a corrida para sermos os melhores.

E nesta sociedade em que o interesse máximo vai para a produção e os resultados, começam a surgir empresas que oferecem às funcionárias um novo serviço para terem disponibilidade total: congelação de óvulos. Já há empresas americanas a garantir às funcionárias a congelação de óvulos, que custa perto de 7900 euros, mais cerca de 395 euros mensais para manter os óvulos congelados. Ou seja, estamos a promover o atrasar da maternidade para "depois", porque o "agora" é de produtividade. Na nossa sociedade não interessa promover a família, termos famílias grandes ou estarmos tempo juntos. O que interessa é produzir. E consumir.Muita gente pode achar esta medida excelente.

A mim leva-me para o "Admirável Mundo Novo" do Huxley, onde toda uma sociedade é criada em laboratório. E assusta-me.

Um processo de congelação de ovócitos e processo de fertilização in vitro não são exatamente um passeio no parque (há riscos no processo, que é complicado), e devem ser feita nas situações em que é mesmo preciso, mas e nas outras? E o amor e as outras emoções? Então e queremos ser pais na altura em que devíamos ser avós? E são as entidades patronais que decidem as nossas vidas? E quando é que vai ser o timming ideal?

Gostava de um mundo onde se incentivassem as mulheres a ter filhos na altura em que biologicamente sentem que querem ser mães, que houvesse horários flexíveis, possibilidade de part-time nos primeiros anos dos filhos (em que é necessário um maior apoio e disponibilidade), entidades patronais compreensivas. Locais de trabalho com creche para os filhos ficarem, que estivessem abertos 24 horas se necessário (porque há casos em que fazemos turnos de 24 horas e se não tivermos ninguém com quem deixar os filhos, onde ficam?). Um mundo ainda longínquo. Mas possível, se todos quisermos e lutarmos por isso.

 

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