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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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22
Out15

Confissões de uma médica #9


Sofia Serrano

Desde que comecei a fazer ecografia a grávidas, que cada momento é inesperado, e cada entrada de uma nova família ou de uma grávida sozinha traz expectativa e surpresa.

Em particular quando se vai fazer a primeira ecografia, depois de um primeiro teste de gravidez positivo, as emoções estão à flor da pele. Os pais de primeira viagens estão geralmente mais ansiosos, mas nem sempre. A verdade é que quase toda a gente já tem expectativas, que acreditam que aquele exame vai concretizar. Há quem queira gémeos, há quem queira só um bebé, há quem queira saber se não há descolamentos e se está tudo bem, há quem queira saber o sexo do bébe desde o primeiro instante. Há quem veja logo ali um futebolista ou uma bailarina, há quem defina a personalidade do futuro filho pelo número de vezes que o pequeno feto se movimenta durante o exame - ou ache que vai adorar dormir porque esteve sossegado durante aquele tempo. Não é fácil gerir expectativas.

E acima de tudo, é difícil dar notícias que os futuros pais não querem ouvir.

 

Há quem tenha engravidado acidentalmente aos 43 anos, quando já se é mãe de três meninas e afinal são gémeos. Há quem tenha passado anos em tratamentos de infertilidade, e finalmente depois de um teste de gravidez positivo, aquela gravidez não evoluiu e o seu pequeno sonho parou de crescer às 8 semanas. Há quem tenha um bébe com malformações graves, depois de várias gravidezes óptimas e de quatro filhos saudáveis. É difícil dar estas notícias aos pais, mas mais que isto, é muito complicado receber esta informação. Nalguns casos, é devastador. Nestes momentos, gostava de ter uma varinha mágica para mudar o curso da história e poder fazer com que todos saíssem de sorriso rasgado do consultório.

E depois há a expectativa do sexo do bebé.

A grande maioria concentra-se no saudável. Como pais, a prioridade é saber que o nosso filho está bem.

Mas há quem sempre tenha imaginado ter um filho rapaz. Ou uma menina. E desde que sabem que vão ter um filho, que "de certeza" é do sexo que imaginaram. Pergunto sempre se querem saber o sexo, porque há quem não queira, e prefira a emoção da surpresa na altura do parto. A grande maioria fica genuinamente feliz com o que o destino lhes reservou, seja menino ou menina.  

Mas quando a minha resposta relativamente ao futuro filho não está de acordo com o desejado, então aí as coisas começam a complicar. O primeiro instinto é desconfiar. Eu explico que sim, posso-me enganar, poucos exames são 100% fiáveis, mas mostro uma imagem daquelas bem evidentes (rapazes deixam pouca margem para dúvidas, mesmo aos pais que têm dificuldade em perceber uma ecografia). "Não pode ser, Dra,veja bem. Está enganada, de certeza". Há quem não queira, de todo aceitar, e sugiro confirmarmos mais tarde, deixando a perspectiva, que, se calhar, vai ser um menino e não a menina que se sonhou, para colocar laços e vestidos com folhos. E mesmo que se reforce que parece estar tudo bem com o bebé, há desilusão.

Há quem pergunte se numa próxima gravidez há alguma maneira de escolher o sexo do bebé.

E confesso que nestes momentos fico desiludida com o mundo. Este mundo que nos pressiona a famílias perfeitas, que nos faz acreditar que o que importa é ter uma menina porque já temos três rapazes, ou ter um rapaz porque a família está recheada de meninas. Este mundo complexo, que faz com que muitos casais não consigam ter filhos, que muitas mulheres tenham perdas gestacionais recorrentes, que tanta gente passe anos em tratamentos, meses a fazer injecções e de repouso absoluto para finalmente ter o seu filho -saudável - enquanto outros desejavam poder escolher o sexo, a cor dos olhos, o tipo de cabelo. 

Bolas, que o homem é de facto, a espécie mais complicada de sempre.

 

 

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