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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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03
Jun15

Confissões de uma médica (II)


Sofia Serrano

Naquela manhã sentia-se o cheiro a maresia no ar. 
Havia o frenesim habitual num terminal de transportes públicos e as pessoas corriam e acotovelavam-se para chegar a tempo. A margem norte não se via, pelo nevoeiro matinal, mas ela estava ali, a uma curta distância. 
Atravessar o rio naquele primeiro dia na faculdade significava uma espécie de chegada à meta. A miúda da margem sul, das escolas públicas, ia ser a primeira da família a ir para uma faculdade de medicina, e, correndo tudo bem, a ser médica um dia. 
Tinha aquela sensação de ter uma série de borboletas a esvoaçar na barriga e lembro-me que pensei que dentro em breve iria perceber a parte fisiológica responsável por aquilo: devia haver uma série de hormonas e processos complexos que me levavam a sentir aquele friozinho, e que eu teria de saber na ponta da língua. 
Era outubro, mas os dias ainda estavam bons. Tinha passado um verão inteiro em suspenso, sem saber se iria mesmo conseguir entrar para a Medicina. Tinha feito os exames nacionais todos na primeira chamada, em Junho, e depois de preencher os papéis de candidatura à faculdade, e de algumas horas a decidir a ordem da escolha, restava-me esperar. O verão parecia interminável – foi provavelmente a única vez na vida que senti isso. 
Quando em setembro saíram finalmente as colocações na faculdade, soube que a nota de entrada em medicina tinha sido 18,2 valores. Uma média elevadíssima, que só permitia a entrada a muito poucos. Nessa altura só havia 5 faculdades em Portugal: duas em Lisboa, duas no porto e uma em Coimbra, e poucas vagas, o que fazia que só entrassem os que tinham melhores notas. 

Havia sempre debate acerca da justiça de todo este processo de entrada e era pouco consensual que um aluno de 19 pudesse ser melhor médico que um de 17, porque os médicos não se fazem só de algarismos, como vim a perceber ao longo destes anos. Mas regras eram regras e o processo de entrada era assim, e mantém-se na mesma. Apesar da ansiedade de saber se tinha entrado para a faculdade que queria, estava relativamente confortável com uma média final acima de 19 – mas queria saber se conseguia ficar em Lisboa, como pretendia. 
Mais uma vez, no dia da saída das colocações, a comunicação social deu destaque à nota de entrada para medicina. Houve uma série de reportagens para tentar perceber quem tinha entrado e como se conseguia chegar lá – afinal era preciso ser-se um génio para conseguir aquelas notas fabulosas? Andar nos melhores colégios? Ter-se apoio económico  para poder ter apoio extra escolar dos melhores professores? 
Parece-me que não há uma resposta única, e que cada caso é um caso. 
Uma coisa é certa: é preciso trabalhar muito. 
Passar horas a estudar, estar concentrado nas aulas. Mas depois é preciso conseguir gerir o stress dos exames, a ansiedade que muitas vezes nos turva o conhecimento. 

Tive a sorte de ter uma mãe professora de Biologia, o que fez com que desde pequena sempre me sentisse muito à vontade nessa área. Lembro-me de ter uns seis anos e de ir com a minha mãe às aulas de Biologia que ela dava nessa altura: desenhei a estrutura das células, que ela ensinou aos alunos e acho que nunca mais me esqueci. E em casa adorava ver na televisão uma série originalmente francesa, que tinha sido traduzida para português como “Era uma Vez a Vida”. Ela mostrava muitas vezes nas aulas alguns desses episódios, e eu tinha curiosidade em aprender tudo sobre o corpo humano e não perdia um. Estas coisas ajudaram-me muito no meu percurso durante o ensino secundário e até antes. Mas no geral, parece-me que sempre consegui ter boas notas porque gostava de aprender coisas novas. 
Foi graças ao meu pai que ganhei o gosto pela escrita e devorava livros desde que aprendi a ler – o primeiro livro a sério que li foi um da colecção portuguesa “Uma Aventura”, tinha sete anos e foi comprado numa feira do livro na margem sul. Acho que na altura os meus pais não acreditaram que o conseguisse ler, porque estava no primeiro ano da escola e só sabia ler frases, que era essencialmente o que se aprendia no início da escola primária. O “Uma Aventura na Escola” foi lido nesse verão e outros se seguiram. 
Acabei por ter facilidade em português e adorava escrever composições e imaginar histórias. E em História, tive a ajuda do meu pai, que tinha sido professor da disciplina, e me contava pormenores que não vinham nos nossos livros escolares e que alimentavam a minha imaginação. Devo muito aos meus pais os bons resultados que tive, porque me motivaram e me mostraram que o mundo é uma caixinha recheada de coisas para descobrir. E assim, as boas notas foram surgindo naturalmente.
No ensino secundário, a minha mãe, professora, achou que eu precisava de ter algum apoio para garantir bons resultados nos exames nacionais, poder ter uma média confortável e escolher o que queria para o futuro, sem condionamentos. Por isso, no 12º ano tinha uma vez por semana uma hora de treino em exercícios de matemática e outra de química com duas professoras excepcionais. Acima de tudo, acho que aprendi uma série de técnicas para lidar com os possíveis desafios que me fossem colocados nos exames e treinei a resolução de uma série de problemas, de vários pontos de vista. Aprendi que na véspera de um exame, não se ganha nada em querer estudar e rever – essa minha professora de matemática dizia-nos sempre, a mim e a outro amigo, que o dia antes do exame era dia de fazer uma mousse de chocolate, comê-la lentamente, e ir ao cabeleireiro. 

Ou seja, o stress de última hora não seria nosso amigo. 
Acho que esta foi uma das lições que retive para a vida e que uso sempre que tenho datas importantes.

                                




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