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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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09
Out13

Crónicas de uma interna #11


Sofia Serrano

Sempre me ensinaram que não devemos julgar pelas aparências. 
Que o que importa realmente é o que que as pessoas são, e não como se vestem, se têm tatuagens ou piercings, se andam maquilhadas ou despenteadas. 
O interior, a maneira de ser, o que fazemos pelos outros, esses é que contam.
Mas na vida, as coisas não são assim tão lineares. 
Muito menos quando estamos a falar de trabalho. E no meu caso concreto, de Medicina.
Lembro-me de ter começado a cadeira de Medicina I na faculdade e o nosso professor na altura (impecavelmente vestido, de fato e gravata) começou a primeira aula a frisar regras que ele considerava muito básicas: nas enfermarias e consultas, nada de andarmos com mini-saias ou havaianas, os cabelos deviam andar apanhados, os rapazes não deviam ir de calções ou sandálias. E os piercings tinham de ser tirados. Em suma, salientou que se queríamos ser médicos, tínhamos de andar bem vestidos, porque era meio caminho para causarmos boa impressão e os doentes confiarem em nós.
Lembro-me de ter ficado chocada na altura. Escandalizada mesmo. Então ele estava a dizer que era a roupa que ia fazer de nós bons médicos? Isto ia contra tudo o que eu acreditava.
Mas fizemos o que ele dizia. 
Andei a pensar nisto muito tempo. E a observar. Independentemente da capacidade dos médicos, a verdade é que a nossa sociedade e as pessoas em geral julgam, de facto, pelas aparências. Eu sei que o meu colega que tem uma tatuagem e uma série de piercings é o melhor internista que eu conheço, mas a senhora de 70 anos acha-o estranho e confia mais naquele que não é tão bom, mas anda sempre de camisa, calça impecavelmente engomada e gravata. E mesmo pessoas mais jovens, se tiverem de optar, escolhem o médico mais velho, mais bem vestido, ao invés da médica com ar de miúda, madeixas vermelhas e um piercing no nariz - mesmo sem saberem nada de ambos. 
E na realidade, a roupa que vestimos influencia muito a impressão que causamos e pode ser determinante na nossa profissão.
Isto para chegar ao ponto que um exame de final de especialidade é mais uma ocasião na vida de um médico com um dress-code específico. É muito semelhante a ir defender uma tese de doutoramento. De facto, parece que a roupa reflecte a nossa confiança - e para causar boa impressão ao juri, é cada vez mais um ponto no qual temos de investir. Cabelo, maquilhagem e fato,devem mostrar que estamos seguros, serenos, confiantes que demos o nosso melhor nos anos da especialidade e que estamos prontos.
Portanto, para além de estudar desalmadamente, tenho de ir às compras e marcar o cabeleireiro, que estão-se a aproximar os grandes dias.


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