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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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17
Set13

Este mundo em que vivem os nossos filhos ( e o outro que era nosso)


Sofia Serrano

Os aniversários dos filhos são uma boa altura para reflectir sobre algumas coisas: como crescem rápido, como nos surpreendem a cada dia que passa, como vão conquistando o mundo. 
Mas acaba por ser inevitável pensar neste mundo - este mundo em que eles vivem. 

É o mundo da tecnologia - qualquer bebé de 12 meses consegue mexer num iPad, qualquer miúdo de 5 anos liga sozinho um computador para jogar, qualquer adolescente passa o dia no facebook ou no twitter. 
A tecnologia do nosso tempo resumia-se à televisão, que no canal 1 era uma ultra-tecnologia, porque era a cores, e ao telefone - sim, aquele velhinho telefone, em que era necessário marcar o número naquela rodinha. E depois surgiu o pager e o Spectrum e parecia que tinham chegado os marcianos e tinhamos a tecnologia extraterrestre de ponta.

É o mundo dos cuidados de saúde diferenciados, em que o acesso a um médico ou a medicamentos é fácil - e não, não me vou debruçar sobre o estado do serviço nacional de saúde, que isso daria pano para mangas, mas em geral os cuidados de saúde dos nossos dias são excelentes. 
Mas tomam-se antibióticos para qualquer constipação, e as mezinhas das avós, que resolviam as nossas doenças quando éramos pequenos foram (quase) esquecidas. 

É o mundo dos estranhos - ninguém sabe o nome do vizinho do lado, nem do de cima. 
No nosso mundo, as vizinhas passavam o dia à janela e sabiam sempre tudo. Conhecíamos de cor e salteado todos os vizinhos da rua, e quem sabe do bairro. Se fosse preciso, ficávamos na casa de vizinha de baixo enquanto os pais iam tratar de alguma coisa e não era preciso pagar a uma baby-sitter. E iamos pedir ovos e salsa ao de cima. E brincavamos com os miúdos do bairro e passávamos o tempo na casa uns dos outros.

É o mundo dos amigos virtuais - depois da escola, toda a gente se senta ao computador e põe a conversa em dia nas redes sociais.
No nosso mundo, encontravamo-nos na rua para brincar depois das aulas. Ou na casa de um de nós. Ou no parque. Jogávamos à bola na rua, ou à sirumba e poucos carros circulavam (agora nem espaço há para estacionar).

É o mundo dos perigos - ninguém pensa em deixar miúdos sozinhos na rua nem os manda à outra ponta do bairro comprar pão, porque vemos as notícias e sabemos que o perigo espreita a cada esquina. Mas no nosso mundo fazíamos recados aos pais, íamos à padaria e à mercearia mesmo quando ainda sabíamos contar mal - e tínhamos sempre muito cuidado nos trocos. Íamos sozinhos visitar a avó ou a amiga que morava ali perto. E o senhor da mercearia dava-nos rebuçados e nós gostávamos de lá ir.

É o mundo dos brinquedos - o mundo onde todas as crianças, aos 5 anos, já não têm sítio para pôr tanta barbie e bebés e peluches, porque os brinquedos são baratos, made in china e de desgaste rápido, e toda a gente quer compensar a ausência e a distância com coisas materiais. E eles têm pouco cuidado com os brinquedos porque sabem que se compram mais.
No nosso mundo, os brinquedos eram especiais. Poucos e bem tratados, chegavam a casa em ocasiões únicas e eram estimados. Eram feitos de material duradouro e alguns eram passados entre gerações.

É o mundo da Troika - o mundo onde não somos donos do nosso próprio destino, onde que não se dá valor a quem trabalha. O mundo em que temos de pôr os nossos filhos em escolas privadas porque as públicas têm horários incompatíveis com os nossos empregos, têm turmas com um número excessivo de alunos e falta de professores (que estão no desemprego). É o mundo em que há famílias a passar fome, mas em que o estado salva bancos e clubes.
No nosso mundo, havia um presidente da república e um governo - e na nossa ingenuidade de crianças, parecia-nos que eram eles que mandavam no pais.


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