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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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20
Jun13

Os dias longos de férias ( de outros tempos)


Sofia Serrano

Aquele ritual de arrumar malas e malinhas para ir de férias deixa-me sempre com sentimentos contraditórios : a emoção de finalmente desligar do dia-a-dia e passar uns dias literalmente na boa vida, e o stress de tentar meter meio mundo no carro, e ficar sempre com a sensação que nos vamos esquecer de alguma coisa importante ( e sim, à medida que a família aumenta, a tralha também aumenta!). 
Mas enfim, respirar fundo, imaginar um puzzle gigante (que eu tanto gosto de fazer) e tudo se arranja.
Acaba também por ser inevitável lembrar-me destes rituais da ida para férias quando era pequena - muito semelhantes aos que se passam agora, mas com a excitação de quem é criança e vai para as férias grandes.

Nessa altura, tenho a sensação que os dias eram mais longos. Havia tempo para mais coisas.

As nossas férias eram na nossa costa, onde continuamos a ir todos os anos. Nessa altura, acampávamos à beira-mar. 
Uma tenda fazia a nossa felicidade. Candeeiros a gás, banhos nas fontes naturais das rochas da falésia, roupa lavada à mão. Fogueiras à noite para fazer o jantar, torradas com manteiga derretida nas brasas que se apagavam. Histórias em família e com os amigos que por ali se encontravam todos os anos. Jogos de cartas, o nosso não-te-irrites, o monopólio até de madrugada. Brincadeiras de crianças à beira-mar, nas rochas, na terra, atrás das galinhas do monte mais próximo. Comprar pêssegos sumarentos. Apanhar gambozinos com um saco azul e uma lanterna (só nos enganavam uma vez!). 
Nesta altura não havia "kits" para férias e para a praia. Havia fatos de treino e roupa prática para brincar, que se sujava e rasgava nos joelhos, e que depois a avó cosia joelheiras e cotoveleiras. Roupa que passava entre irmãos e primos.
Não havia tecnologia por todo o lado. Nada de ipads ou iphones nem sequer televisão. Havia a nossa imaginação, as histórias dos fantasmas no forte, os livros dos Cinco ou dos Sete que nos inspiravam a metermo-nos em alhadas. E a sairmos delas. Havia gafanhotos, uns com as asas azuis e outras amarelas ( só conseguíamos ver a cor depois de os apanhar).
Havia mergulhos na água gelada sempre que nos apetecesse. Pesca com canas feitas por nós e pobres cabozes apanhados desprevenidos na fritadeira para o jantar. Camaroeiros, baldes, botas-de-borracha e lanternas. Bolinhos feitos de barro e decorados com conchinhas. Búzios e beijinhos, apanhados às mãos-cheias e coleccionados como tesouros.
Havia liberdade.
E era férias grandes. E boas.



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