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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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Café, Canela & Chocolate

09
Mar14

Ter um irmão (uma carta de uma mãe a uma filha)


Sofia Serrano

Minha querida,

Amei-te desde o primeiro instante. 
Desde aquele momento em que vi aparecer o segundo tracinho no teste de gravidez. Amei-te mais ainda quando te vi pela primeira vez na primeira ecografia, quando ouvimos o teu coração a bater acelerado. Quando te senti mexer, quando parecias reconhecer as nossas vozes e outros ruídos. 
Amei-te cada dia que passava, enquanto crescias e te preparavas para enfrentar este mundo. No momento do parto experimentei um misto de medo e alegria - e amei-te ainda mais quando te puseram no meu peito e senti o teu cheiro. Quando abriste muito os olhos quando o pai falou contigo, porque o reconhecias das longas conversas que tinham.
O amor foi crescendo de forma inimaginável a cada dia, a cada semana, a cada mês. E guardo comigo todos os instantes. Quando sorriste pela primeira vez. Quando choravas com cólicas. Quando adormecias no calor do meu colo. Quando começaste a gatinhar. Quando deste os primeiros passos. Quando disseste pela primeira vez "mamã". Quando te nasceu o primeiro dente. 
Cada dia que passa cresces um bocadinho (às vezes parece-me que cresces muito!). Começaste a falar correctamente muito cedo, sempre adoraste brincar ao faz-de-conta e ninguém te ganha em termos de imaginação. És teimosa e muito determinada. Tiveste de aprender a viver com uma mãe que tem de passar noites fora de casa em trabalho e foste forte o suficiente para compreender e aceitar (a até houve uma altura em que também querias ser médica-de-ajudar-a-nascer-os-bebés).
Quando te dissemos que vinha aí um irmão ficaste feliz. Entusiasmada. Ajudaste a escolher o nome. 
Mas à medida que a barriga crescia, às vezes tinhas dores de barriga. E acho que começaste a sentir que o amor gigante que nós tinhamos por ti ia mudar, mas nunca nos disseste. Que ias ter de dividir as atenções.
Mas o amor não mudou, só cresceu ainda mais.


No dia em que nasceu o mano, tiveste de ficar com os nossos queridos amigos, e recordas sempre o dia como "a festa de pijama". Nesse dia, o meu amor por ti cresceu ainda mais. O nosso amor por ti. E nunca vou esquecer a tua cara de felicidade quando viste o mano pela primeira vez, quando lhe pegaste. Querias ajudar a fazer tudo. E ao mesmo tempo, querias que tudo voltasse a ser como era antes. Não foi fácil quando te apercebeste que aquele pequeno ser precisava de mimo, atenção, leite e carinho. Que afinal o tempo todo do mundo já não era só para ti. Ele trouxe-te um presente, como a mãe tinha lido, e tu ficaste satisfeita. Mas mesmo assim as mudanças são difíceis. E às vezes (muitas vezes) fazias parvoíces para chamar a atenção. Para as pessoas deixarem de olhar para o minúsculo ser que tinha aparecido ali em casa.
Tentamos sempre que também tivesses atenção. Mantivemos rotinas e tu sentiste-te mais segura em continuar a ir à escola, estar com os amigos num ambiente que não mudou.
E entretanto, o teu mano foi crescendo. Foi-te conquistando com o seu sorriso, as suas brincadeiras. O deslizar pelo chão antes de gatinhar. Os primeiros passos e as malandrices constantes. Foram-se tornando cúmplices, inseparáveis. E agora passam os dias a brincar juntos. E têm aquela ligação inexplicável entre irmãos. 
Mas ele, o mais novo, continua a precisar mais de atenção - porque ainda é pequeno, porque ainda quer colo, porque precisa de ajuda para comer. Porque está sempre a tentar subir para todo o lado, abrir tudo o que é armário, em suma, precisa de vigilância constante. 
E a mãe e o pai gostavam de ter mais tempo - para vocês os dois. Entre o trabalho e as rotinas diárias, às vezes não nos apercebemos que os dias passam a voar. E quando te vejo a querer ajuda para comer ou a fazer outras coisas de bebé, para chamar a nossa atenção, apercebo-me de repente que precisamos de mais momentos as duas. O nosso tempo mãe-e-filha. Porque tu estás crescida, linda, esperta, mas continuas a precisar dos mimos da mãe. 
Ter um irmão é uma coisa boa. Muito boa. Nem sempre é fácil, porque tens de aprender a partilhar os brinquedos, o lanche, o espaço no quarto. Os pais. Mas o nosso amor não se dividiu pelos dois: multiplicou-se. E tu, minha querida, continuas sempre a ser muito especial, e nunca nos podemos esquecer de aproveitar tempo a duas - só nós duas. Porque vocês os dois merecem o Mundo.

A mãe




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