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Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

Diário de uma varicela (parte 1)

Dia 1

Tudo estava perfeito. Bom tempo, uma brisa fresca. A família reunida para um aniversário especial. De uma pessoa muito especial. Miúdos felizes, a brincar. A tratar da horta. A jogar à bola. 
E depois lá começa a M. a queixar-se de dor de cabeça. "Hum...não é costume, deve estar para aparecer alguma", penso eu. Mas não tem febre e vai andando bem disposta.
E eis que à hora do banho surge a explicação: pintas! PINTAS!!!! Tem pintas na barriga e nas costas, muito, MUITO sugestivas de varicela. E uma pontinha de febre. (vamos lá ligar ao pediatra!)
TEM VARICELA! Bonito.
Era só o que me faltava para juntar aos meus malabarismos diários (que podem ler aqui). E o irmão???? Ai.... se não lhe começarem a aparecer agora...daqui a 15 dias temos novo filme.
Ela acha divertido. "Não vou à escola, não é mãe? YUPIII!!"
Sim. 7 a 10 dias em casa. Bonito. Só pode voltar à escola quando tudo estiver em crosta.

Dia 2

As pintas aumentam a olhos vistos. A febre baixinha vai continuando. A comichão começa a aparecer. Mas a coisa ainda corre bem.
Ao ver tanta pinta, ela pergunta se vai ficar com varicela PARA SEMPRE (!). Explico que não, que passa, lá contamos histórias de quando a mãe e o pai tiveram e que agora estão aqui lindos e maravilhosos (e ela ri-se).
Anda mais sonolenta que o habitual por causa do tratamento para a comichão ( hoje não se escapou à sesta, como tenta fazer sempre!).
É impossível impedir que os irmãos brinquem juntos. O P. não tem vestígio de pintas.

Dia 3

Acordou a queixar-se de comichão. Continuam a aparecer pintas POR TODO O LADO. Ela começa a achar que afinal não é assim tão divertido ter varicela (era o que ela imaginava, pintas giras, miúdos em casa a brincar a coisas divertidas e pouco mais.)
À medida que o dia passa a comichão aumenta, apesar do anti-histamínico. Resolvemos tentar o banho com farinha maizena.
Ela acha que se vai transformar num bolo (está a imaginar-se no meio da massa!). Fica desconfiada e acha que a mãe, que é médica, não está boa da cabeça. Mas tem tanta comichão que lá diz que experimenta. 
Quando começa a ver a banheira a encher e, de repente, a água a ficar branca, adora! Diz que é uma princesa a tomar banho em leite de burra (o que esta miúda se lembra!) e que vai ficar com a pele mais suave do reino.
Pelo menos enquanto está no banho de imersão não tem comichão.
Adora e é difícil tirá-la de lá.
O P. continua sem pintas.
Na hora de ir para a cama, a comichão piora. Resultado: juntas até altas horas da noite, eu a (tentar) estudar, ela a PASSAR-SE com a comichão, deita-se no sofá do escritório ao meu lado. Pondero ir pô-la na banheira com o dito leite de burra. Entretanto ela lá acaba por adormecer, mas acorda mais vezes durante a noite. Agora, já diz "Mas porque é que tinha de ser eu a ter varicela, mãe?".
Lá lhe explico que ela é uma princesa. Forte. E que a varicela vai passar (temos de ter paciência).

(continua)

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Socorro!...a minha filha tem pintas!

Podia ser "a minha filha tem pinta".
Era mais giro.
Mas não. No meio dos malabarismos cá de casa, este fim-de-semana ainda nos saiu mais uma bela surpresa na rifa: pintas e pintinhas na M. 
Sim, a nossa querida varicela resolveu passar férias cá por casa e achou que a princesa do sítio era a companheira ideal. 
Conclusões:
- planos da mãe para estudo/trabalho por água abaixo (há que reorganizar tropas)
- miúda por um lado feliz ("nada de escola mãe, yupiii!"), por outro lado not so much( "vou ficar com pintas para sempre? e isto dá comichão mãe! quando passa??aiii...tenho de COÇAR!!!!")
- o miúdo, pintas nem vê-las. Portanto, safou-se de apanhar na altura da irmã...agora é esperar mais 15 dias a ver se também aparecem as ditas cujas.

E pronto. Assim vai a vida.
O que vale é que os miúdos continuam felizes.




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Crónicas de uma interna #4

Desde cedo que nos incitam à competição. A sermos os melhores. Os melhores é que têm boas notas nas escolas. Os melhores é que entram em Medicina. Os melhores é que acabam o curso com uma média alta e podem fazer um bom doutoramento. Os melhores entram para as melhores especialidades.
Lembro-me da cerimónia de recepção aos novos alunos no primeiro ano do Curso de Medicina. De me sentar num majestoso anfiteatro com muitas outras caras com um misto de ansiedade, medo e euforia. Lembro-me vagamente do discurso pomposo feito pela então professora de Bioquímica. Mas lembro-me de ela ter usado a expressão "vocês são a nata da nata, não podem desiludir". De ter colocado nos nossos ombros a responsabilidade de sermos os melhores. De nos incitar a sermos os melhores.
Mas mesmo num mundo regido pela competição e a ânsia de vencer, persistem as coisas boas da vida. A amizade. O espírito de entreajuda. Mesmo num anfiteatro cheio motivado para a luta desenfreada pelos lugares cimeiros, há olhares que se cruzam e que partilham ideias e valores.
Mesmo num dos cursos mais competitivos, tive boas (muito boas) amigas e bons amigos. Fazíamos e partilhávamos apontamentos, estudávamos em conjunto. Queriamos ser bons, ter boas notas, ser bons médicos. Mas trabalhávamos em conjunto. Optimizávamos recursos. Riamos juntos. Chorávamos juntos. Vestimos a bata e pusemos o estetoscópio juntos pela primeira vez e, quais detectives, faziamos listas de potenciais doenças para um e outro doente, porque duas cabeças (ou mais) pensam melhor que uma só. E no fim, o trabalho de equipa resultou. Mais que a competição individual e desenfreada.
E depois na especialidade, o espírito é o mesmo. Temos um programa a cumprir. Números para apresentar. Trabalhos para fazer, palestras para dar. A competição novamente e sempre. Mas mais uma vez, o trabalho em equipa é, sem dúvida, meio caminho andado para sermos os médicos que desejámos. Precisamos de bons profissionais, competentes. Mas acima de tudo, precisamos de boas pessoas.

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