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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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04.06.15

Era uma cesariana, se faz favor!


Sofia Serrano

Em poucos anos, passámos de uma era em que toda a gente nascia em casa de parto "normal" para um parto no hospital, num ambiente estranho, rodeado de soros, máquinas que apitam, e culminando muitas vezes numa grande cirurgia - a cesariana. 

A verdade é que nos anos 40, na altura em que toda a gente nascia em casa, também havia muitos bebés e mães a morrer. Muito mais que agora. O "não fazer a dilatação" era um dos casos de parto prolongado, que podia acabar menos bem, entre outras  causas. A taxa de mortalidade e morbilidade desceu à medida que os partos passaram a ser hospitalares e com acompanhamento médico. Mas o reverso da moeda foi um crescendo ao longo dos anos da taxa de cesarianas - que também têm as suas complicações.
 
A cesariana é um parto cirúrgico, ou seja, é preciso anestesia, bloco operatório e uma equipa completa de médicos e enfermeiros para fazer um parto destes. É preciso fazer um corte na pele, na gordura, no músculo, afastar a bexiga e abrir o útero. Romper a bolsa e puxar a cabeça do bebé para o mundo exterior, ou os pés. Depois é preciso tirar a placenta e fechar tudo por camadas, tendo sempre em atenção que ali à volta há vasos sanguíneos, o intestino, a bexiga. É preciso ter experiência cirúrgica e destreza. E mesmo correndo tudo bem, por ser uma cirurgia, a recuperação da mãe é mais lenta que num parto normal sem complicações. Pode haver infecções, complicações com a anestesia, entre outras coisas.
 
Mas se dizem que as cesarianas são perigosas e é preciso reduzir o seu número, afinal porque é que as fazemos? 
 
Há muitas razões: 
- podemos suspeitar que o bebé não está bem, e que não vai aguentar um parto normal, por isso é preciso que nasça o mais rápido possível, e a cesariana permite isso
- o bebé pode estar sentado e acharmos que é difícil que nasça por via vaginal sem complicações
- a mãe pode ter uma doença que a impeça de fazer esforços expulsivos e ter um parto vaginal
- o bebé pode ter algum problema que torne a cesariana a melhor opção
- pode ser um bebé grande demais para a bacia da mãe e "não passar"
- podem ser gémeos, ou trigémeos, e não ser possível um parto vaginal
 
Há muitas mais razões que levam a cesarianas. 
Muitas das vezes as equipas preferem não arriscar e avançar para uma cesariana. Outras vezes , talvez se pudesse esperar mais tempo e tentar um parto vaginal. Muitas vezes, induzem-se os partos antes do tempo por diversos motivos e mais facilmente se acaba num parto cirúrgico.
A verdade é que as cesariana podem ter complicações, mas também podem salvar vidas. 
É preciso encontrar o equilíbrio e fazer as cesarianas necessárias, aquelas que efectivamente vão ter mais benefícios que riscos.
 
Depois há ainda outra perspectiva: porque é que a mulher não poderá escolher o tipo de parto que quer? E se for devidamente informada, porque é que não pode escolher uma cesariana, tendo consciência dos riscos? 
Nos hospitais públicos, esta opção não é possível - devia ser, mas não é. Fazem-se as cesarianas estritamente necessárias, mas a opção da mulher não é contemplada.
E parece-me que uma das razões para os hospitais privados terem taxas de cesariana de cerca de 66% em comparação com os 35% dos hospitais públicos pode ser essa, a par do facto de as cesarianas serem melhor pagas pelos seguros que os partos normais - e os médicos, como todos no país, estão pressionados para produzir e ter lucro.
 
No mundo ideal, as mulheres deviam ser bem informadas, ter uma gravidez bem vigiada e poder escolher o tipo de parto, que poderia ser um parto mais ou menos naturalista, mais ou menos medicalizado, de acordo com o escolhesse. Podia ser um parto na água ou uma cesariana, ter epidural ou hipnose como analgesia. Devíamos poder ter todas as opções, e devidamente esclarecidas, escolher o nosso parto de sonho.
Porque no fundo, tudo se resume a um final feliz, com mãe e bebé saudáveis, e é isso que todos queremos e é por isso que lutamos diariamente, não por números ou taxas.
 
                          
 
      

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