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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

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Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

Esta coisa de sermos mães velhas

02.04.14 | Sofia Serrano

Somos novas para umas coisas e velhas para outras. É assim desde sempre. Mas no que toca a maternidade, o limite entre ser uma "mãe nova" e ser uma "mãe velha" é ainda mais complicado.
E se há séculos atrás éramos mães jovens (às vezes muito jovens), hoje em dia vivemos num panorama totalmente diferente. Estudamos muitos anos, vivemos dependente dos pais até tarde e temos dificuldade em encontrar um emprego estável. Queremos ser boas naquilo que fazemos e mostrar que conseguimos progredir e melhorar em termos profissionais. Vamos adiando uma gravidez porque apesar da maternidade estar legalmente protegida, na prática sabemos que a primeira a ser despedida é a trabalhadora que está grávida. E vemos as notícias diariamente e sabemos que há a Troika, mais portugueses a emigrar que aqueles que nascem, um aumento do custo de vida e uma redução dos salários. Há crise. E temos um sorteio de carros topo de gama para quem passar facturas mas incentivos à natalidade (como este) nem vê-los. Temos dúvidas se vale a pena trazer filhos a este mundo por todas as razões e mais algumas. Queremos dar-lhes o melhor, e por isso esperamos. Esperamos pela altura certa. Esperamos e esperamos.
Esperamos pelo homem certo, pelo emprego certo, pela promoção certa. Esperamos termos viajado o suficiente, dançado o suficiente, bebido o suficiente, experienciado o suficiente. Esperamos ganhar o suficiente, ter uma casa grande o suficiente e um carro familiar. Esperamos até ao timming perfeito. Que nunca surge. 
E às vezes, de repente, apercebemos-nos que é tarde demais. Por já termos passado dos 40 anos (em obstetrícia, aprendemos a falar em "idade materna avançada" a partir dos 35). Porque a facilidade para engravidar já não é a mesma (a biologia é mais forte). Porque afinal, se calhar, não valeu a pena termos adiado uma experiência tão fantástica (entre o maravilhoso e o assustador) em deterimento de outras que afinal não foram assim tão boas. 
Decidir ter filhos não é fácil.E ouvimos diariamente o "quando é que engravidas?" ou " nem penses em engravidar durante a especialidade!". Eu sou uma mãe que cai na média da curva de idades  para ter o primeiro filho do nosso país - tive a primeira filha aos 28 anos e o segundo aos 32. Durante o internato de Ginecologia e Obstetrícia, o que fez com que fosse por alguns considerada perto da insanidade, e por outros uma espécie de super-mulher. Tive sempre dúvidas sobre " a altura certa" para ter filhos. Mas olhando para trás, não me arrependo de nenhuma decisão - não foi fácil, mas foi muito recompensador e sinto-me uma melhor pessoa com eles. Todos os dias, eles me ensinam algo de novo. E é ao olhar para eles e saber que daqui a alguns anos vamos ter uma população envelhecida e insustentável que gostava que nos deixássemos de sorteios de carros topo de gama e passássemos a valorizar o que realmente é importante.
Precisamos de mães que possam ter filhos "agora", e não "depois". Precisamos de incentivos e condições para podermos ter as famílias com que sonhamos.
Adiamos a maternidade. Mas ainda podemos ir a tempo, se quisermos.



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