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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

Podemos ser o que quisermos

01.11.18 | Sofia Serrano

Fui ao concerto da Carolina Deslandes em Faro. Na realidade, foi um presente de aniversário para a minha filha e para uma amiga e acabamos por ir numa espécie de saída de miúdas.

O concerto abre com a Carolina em palco, sentada num banco de jardim, com a banda por trás e um muro com flores. Apesar de sentada, a barriga de grávida de 3º trimestre nota-se bem. E a tranquilidade e harmonia do cenário quando ela começa a cantar é algo extraordinário - está tudo exatamente como devia de estar e entramos no mundo dela, na "Casa" dela, com convite, como se fossemos amigos de longa data.

Ela confessa no final da primeira música que a barriga de grávida lhe dificulta algumas das respirações necessárias para as notas saírem como devem - mas se não o dissesse, ninguém notaria. Imagino o bebé embalado pelas músicas, e com a mesma tranquilidade que a mãe. Está tudo perfeito.

 

Durante o concerto, ela faz mais confissões, e fala sobre os desafios da maternidade - mais em concreto, o facto de muita gente achar que se escolhermos ser mães, então vamos deixar a nossa carreira para trás. Escolher a maternidade é perder o comboio? Em particular quando se fala de artistas, muita gente acha isto. Mas para os médicos é igual, e para tantas outras profissões. Afinal, quem disse que não podemos ser tudo ao mesmo tempo? Ela achou que isto não era verdade. Eu também. E tantas outras mulheres.

 

Lembro-me que durante o internato médico, quando anunciei que estava grávida, acharam que eu ia deitar tudo a perder. Que não ia conseguir os números cirúrgicos necessários, que me limitaria na minha formação como médica. Que me estava a desviar do meu caminho. Que ia perder tempo. Eu achava que não. Queria muito ser médica, mas também queria muito ser mãe. E porque não ser as duas coisas?

Acredito que a maternidade nos dá novas capacidades. Novas leituras do mundo. Novas maneiras de encarar os desafios, associados a uma capacidade extraordinária de multitasking. E tudo isto nos ajuda na nossa profissão, na nossa família, no nosso dia-a-dia.

A gravidez e a maternidade ajudaram-me a entender melhor os sintomas das grávidas, as dúvidas e ansiedades. Acredito que ser mãe me tornou melhor obstetra, e não o contrário, como muitos me queriam fazer crer.

 

Curiosamente, mesmo quando mostramos que somos capazes, se anunciamos uma nova gravidez, a conversa repete-se. "Mas porquê outra criança?" "Devias deixar isso para outra altura".

A maneira de responder a estas pessoas? Sorrir e continuar. Porque todos podemos ser o que quisermos.

 

 

Como a Carolina Deslandes nos mostrou : que pode ser uma extraodinária cantora e compositora, aliada a uma capacidade de comunicar com o público rara, e estar grávida do terceiro filho. Como tantas mulheres em diferentes profissões o fazem, ao perseguir os seus sonhos, mesmo quando nos dizem que devemos ir por outro caminho, ou ter calma, ou não ambicionar de mais.

 

Sim, podemos ser o que quisermos. Basta acreditar e não desistir. 

 

 

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Carolina Deslandes, e o novo album Casa