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Café, Canela & Chocolate

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

20
Jul19

Confissões de uma médica: e a Sofia, onde anda?

Sofia Serrano

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Hoje de madrugada estava a lavar a cara na casa de banho do hospital, depois de uma urgência de 24 horas. Reparei nas olheiras e olhos cansados, no cabelo desgrenhado. Zero glamour (raramente uso maquilhagem no trabalho e muito menos colares, anéis e pulseiras porque nunca sei quando é preciso esfregar as mãos e os braços até ao cotovelo com uma daquelas esponjas desinfectantes e entrar numa sala de bloco operatório para uma cirurgia urgente ou um parto).  Com ar de quem precisa de descansar depois de uma série de horas de trabalho.

Estava a contemplar a minha imagem refletida no espelho e a pensar : de onde saiu a Sofia Serrano? Aquela que aparece na capa do "Confissões de uma Médica"? A médica perfeitamente maquilhada e de cabelo esticado, que vai ao programa da Fátima Lopes e da Cristina Ferreira? Que aparece em produções na revista Activa e dá entrevistas para a Visão?

Claramente, a Sofia Serrano surge por artes mágicas - através da transformação de fotógrafos talentosos como o Pau Storch e do brilho das make-up artists como a Ana Pereira ou a Raquel Batalha. Através das luzes da TV e das cabeleireiras que sabem sempre como ficamos melhor aos olhos dos outros. A Sofia Serrano está nas redes sociais com ar impecável e nas capas dos livros a sorrir.

Debaixo da make-up e da magia dos meios de comunicação social está simplesmente a médica de olheiras, que também tem dois filhos para cuidar e anda sempre a correr de um lado para o outro para conseguir cumprir o horário das consultas e não falhar no ginásio nem nos compromissos com a família e amigos. 

 

Isto deixa-me sempre a pensar que o que vemos nos meios de comunicação social e nas redes sociais é mesmo apenas uma pequena parte de nós: a parte bonita, no seu melhor ângulo, cuidadosamente estudada para agradar.  Seres humanos mais ou menos reais.

E as verdadeiras pessoas estão por aí, ao nosso lado no autocarro, no supermercado, nos corredores dos hospitais. Com pouca maquilhagem e nem sempre no seu melhor, mas a viver a sua vida da melhor maneira possível, enfretando os desafios sem os retoques do photoshop, os filtros do instagram ou  a cobertura da maquilhagem perfeita.

 

16
Mai19

Confissões de uma médica: os verdadeiros heróis

Sofia Serrano

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Sou uma médica chata. Daquelas que repete muitas vezes a mesma coisa. Em particular, quando chegamos ao 3º trimestre de gravidez, faço questão em repetir em todas as consultas antes da grávida/casal/família sair a mesma lengalenga:

 

"Por favor estejam atentos aos movimentos do bebé - é a maneira de sabermos que ele está bem. E se houver perda de sangue ou de líquido, contrações de 10 em 10 minutos durante 1 hora, dores de cabeça fortes, alterações da visão, inchaço súbito das face ou outros sintomas fora do normal, façam favor de vir à urgência o mais depressa possível para confirmar se está tudo bem".

 

Há que me diga que prefere não incomodar.  Que, às tantas, é algo sem importância e só vem preencher a urgência. Eu digo que prefiro que as minhas grávidas sejam chamadas de "chatas" e que não seja nada, do que fiquem em casa e haja algo sério. Com a saúde de uma mãe e de um bebé não se brinca.

Acho que acabo por passar a mensagem. E ainda bem.

 

Por isso, quando recebo uma chamada às 2:00 da manhã, sei que é algo importante. Sei que aquele pai, que me liga com voz assustada, que viu a mulher a perder sangue, às 37 semanas de gravidez, e com uma dor que não parava, se lembrou do que eu disse. E que não hesitou e literalmente voou a caminho do hospital, para conseguir chegar o mais rápido possível com a mulher e o filho em segurança ao local onde pudesse receber ajuda. Que me ligou a perguntar se estava a fazer bem, mas no seu interior já sabia. E já estava a caminho do local certo, no timming certo.

 

Já sabia que agir rápido era o que era preciso fazer.

 

Saber o que fazer faz mesmo a diferença. Aquele pai salvou mãe e filho de um descolamento de placenta.  Entrou no momento certo, encontrou a equipa à sua espera e em pouco tempo, com uma cesariana emergente, viu nascer o seu filho, e viu a sua mulher ficar bem - e a confirmação de que mais de metade da placenta estava descolada e que as vidas de ambos estiveram por um fio.

Este pai é o verdadeiro herói, porque conseguiu ter sangue frio e lembrar-se daquela lengalenga que a chata da médica obstetra repetia no final de todas as consultas. 

 

(E o que eu adoro ser uma médica chata e poder ajudar a que no final, tudo corra bem!)

06
Mai19

As verdadeiras razões porque os médicos se atrasam nas consultas

Sofia Serrano

woman doctor and patientresize.jpg

 

Gosto de chegar a horas a todo o lado. Aliás, sempre tentei chegar um bocadinho antes do combinado aos meus compromissos.

Gosto de ter tudo organizado, e acho que a maternidade ainda fez com que viva o meu dia a dia com um horário mais apertado e sem grande margem de manobra entre escola, trabalho, refeições, ginásio, futebol, ginástica e afins.

Mas sei que há coisas que não consigo controlar.

E aprendi com o tempo que tenho de ser flexível e adaptar-me, para poder ser a melhor mãe possível, a melhor médica possível, o melhor ser humano possível.

 

Por isso, quando alguém entra no meu consultório para uma consulta de rotina, e ao fim de uma ou duas perguntas sobre a sua saúde começa a chorar convulsivamente sem motivo aparente, sei que tenho de desligar o meu cronometro mental daquela consulta. Sei que muito possivelmente os 20 ou 30 minutos previstos podem ser insuficientes. Sei que quando alguém me abre o coração, mesmo não sendo psicóloga ou psiquiatra, tenho a responsabilidade de como pessoa a ouvir - porque muitas das vezes os nossos problemas de saúde são as nossas angústias e histórias mal resolvidas guardadas bem lá no fundo.

Ela contou-me em lágrimas a história da família: a avó que foi abandonada à porta de uma família rica, que se tornou criada e se apaixonou por um dos filhos do dono da casa. Como tiveram de fugir juntos para poderem ser felizes. Como ela queria uma história de amor parecida mas tinha tido um final exatamente contrário ao que sonhava. Como os filhos não tinham chegado, e agora era preciso decidir se queria desistir de tentar ou inspirar fundo mais uma vez e desafiar a vida.

 

É preciso tempo para ouvir para conseguirmos ajudar na saúde, e nem sempre é possível cumprir tempo e sermos rigorosos.

 

Claro que depois há consultas que demoram mais por outras razões.

Quando a assistente me diz que a proxima utente fala uma língua estranha, não me preocupo porque suponho que quase meio mundo fala inglês. Ou francês. Ou espanhol. E nesses campos acho que me desenrasco bem, mesmo que nalgumas vezes longe da perfeição. Mas quando vejo entrar uma senhora de olhos rasgados que só repete "Japan! Japan!", começo a ficar preocupada. Traz algumas frases escritas em inglês num papel que alguém terá ajudado a elaborar, onde se percebe que está com dificuldade em engravidar.

Ok, percebo o motivo da consulta, mas não é fácil avançar sem comunicação oral.

Por isso, passamos a consulta entre gestos e o Google translator, alternado ingles-japones-portugues e risos da pequena japonesa de 3 anos que acompanhava a senhora, a primeira filha.

 

Bom algum dia iria fazer uma consulta a uma japonesa sem perceber patavina dessa misteriosa língua - e hoje foi o dia!

Mas toda esta logística faz com que a gestão da agenda se torne subitamente caótica e a partir daí funciona o modo bola de neve - sempre a piorar o atraso.

Por isso, deixo um pedido de desculpas gigante a todos os que têm de esperar à porta do meu consultório mais tempo do que era suposto - porque afinal de contas os médicos não são robots e tentam dar o seu melhor com cada paciente.

18
Abr19

Confissões de uma médica: quando a vida nos surpreende

Sofia Serrano

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Uma urgência, a altas horas da noite. Daquelas urgências caóticas em que o trabalho não pára. Chamo a próxima paciente, reparo pela ficha que é uma adolescente de 15 anos.

Vem com a mãe, encolhida, com as mãos na barriga. Não olha para mim, mas percebo que não está bem.

A mãe toma a palavra e diz-me que a filha está desde o jantar com fortes dores de barriga.  Que tem andado muito inchada, que pode ser uma apendicite. Não melhorou com os analgésicos que lhe deu. Está preocupada, mas na urgência geral não sabem o que pode ser, e como ela está no primeiro dia do período resolveram pedir uma avaliação em ginecologia.

A filha continua cabisbaixa e de vez em quando nota-se que tem dor. Como se fosse uma cólica. Reparo que parece ter algum peso a mais, mas mantém sempre os braços e as mãos a envolver a barriga. 

Pergunto se a posso observar, e quando se deita na marquesa percebo o que se passa. Ou pelo menos suspeito. Pergunto-lhe se tem tido o período todos os meses, responde-me que está menstruada. E namorado? A mãe diz imediatamente que não. Que nunca teve namorado e que não é como as amigas, que andam por aí sem terem cuidado. Pergunto-lhe se prefere que a mãe saia um bocadinho para ficar mais à vontade, mas diz que não.

Pouso a sonda do ecógrafo na barriga dela e pergunto se não nos quer contar nada, mas ela firmemente diz que não sabe do que estou a falar. Na imagem, vê-se algo a piscar. E depois uns dedos. E um pé.

A mãe fica a olhar para o ecrã sem perceber nada. A filha começa a chorar.

"Mas o que é que se passa com ela, doutora? Diga-me por favor,  que cada vez percebo menos! E porque é que ela está a chorar?". Tento que seja ela a contar à mãe, mas não consegue.

 

Lá acabo por explicar que a filha está grávida, e que pelo tamanho do bebé, pelas dores e por aquela pequena perda de sangue, parece estar a entrar em trabalho de parto.

A mãe fica em choque e sem reação. A miúda de 15 anos murmura repetidamente um "desculpa, desculpa" e eu fico a tentar perceber o que posso fazer para ajudar naquele momento. É daquelas coisas que não têm um guião, que mexem com confiança, com o nosso papel de mães, com a responsabilidade de cada um,  com uma nova vida no mundo.

 

E no meio de uma noite agitada e de uma mãe e filha em choque, chega mais uma linda menina ao mundo, indiferente a todo o caos à sua volta, saudável e a chorar vigorosamente.

 

 

21
Mar19

Confissões de uma médica: as escolhas que fazemos por amor

Sofia Serrano

Na primeira consulta vieram os dois.

Estavam a tentar uma gravidez há 5 anos. Tinha chegado a altura de pedir ajuda, disseram-me. Conversamos sobre ambos e pedi uma série de exames, o habitual quando queremos perceber o que se passa para não se conseguir o filho desejado.

Na consulta seguinte, ela veio sozinha. Todas as consultas são importantes, mas ele não tinha mesmo conseguido estar presente.

Estive a rever os exames dela e parecia tudo bem.

Depois ela tirou o envelope com os exames dele. O espermograma dizia “azoospermia”. Perguntou-me o que queria dizer.

“Lamento muito, mas significa que não se encontraram espermatozóides no exame. A causa de não conseguirem engravidar será muito provavelmente esta.”

Ela ficou pensativa. “Então não sou eu?”.

“Não me parece. Mas há alternativas e alguns exames adicionais que podem fazer e com reprodução medicamente assistida podem conseguir uma gravidez”.

Ela sorriu. “Obrigada por toda a ajuda dra”. E depois despediu-se.

 

Fiquei confusa e perguntei-lhe se tinha percebido e o que queria fazer.

“Nada” disse com convicção.

E depois confessou-me que iria dizer ao marido que o problema era dela, que os exames dele estavam normais, e que ia ser difícil terem filhos, mas que a vida ia continuar.

Que não lhe podia dizer que ele não podia ter filhos porque o ia perder. E o que eles tinham era algo insubstituível. Aceitava que não teria filhos mas ficaria com o amor da sua vida. E porque não adotar?

 

Saiu tranquila e a sorrir, deixou-me a pensar nas escolhas que fazemos na vida.

30
Dez18

Sobre as voltas que a vida dá

Sofia Serrano

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Era a primeira consulta comigo. Uma mulher jovem, bonita, com menos de 30 anos. Primeiro, disse-me que estava ali para uma consulta de ginecologia de rotina. Mas à medida que lhe fui fazendo perguntas para contruir a sua história clínica, percebi que o motivo não era esse.

 

Foi então que ela me contou o que a estava a preocupar. Estava a estudar, na faculdade. A família não tinha grandes posses e ela tinha de trabalhar em simultaneo com o estudo para ajudar em casa, o que estava a fazer com que o curso se arrastasse por não ter tempo para mergulhar nos livros.

 

Um dia, ouviu por uma amiga de uma amiga que era fácil para mulheres novas como elas ganhar um bom dinheiro fora de Portugal - bastava ir a uma clínica, fazer uns medicamentos e deixar que lhe retirassem os óvulos. Não lhe pareceu muito complicado e já ajudava na parte financeira. Refletiu pouco tempo sobre o assunto, sabia que usariam os óvulos para mulheres que não conseguissem ter filhos, mas tudo o que dizia respeito a maternidade ainda estava longe do seu pensamento. 

 

Claro que para se ser dadora de óvulos teve de fazer uma consulta de avaliação geral e exames prévios. E foi então que lhe disseram - ela não era uma boa candidata. Não era?  Porquê?

 

Disseram-lhe que a sua "reserva ovárica" era muito baixa, apesar dos seus 23 anos - provavelmente uma condição genética. Por outras palavras, mesmo que fizesse a medicação, iriam ter poucos ou nenhuns óvulos para recolher. O que não lhes interessava, pois queriam mulheres que tivessem uma grande quantidade de óvulos para recolher, para serem doados ao maior número de mulheres infertéis possível.

E para além disso, tinham descoberto outra situação - disseram-lhe que teria "endometriose", o que complicava ainda mais todo o processo.

Veio de lá confusa e queria perceber o que tudo isto significava.

 

Subitamente, deu por si a pensar em filhos. Aliás, deu por si a pensar na possibilidade de não poder ter filhos - afinal, era o que todas aquelas palavras difíceis que lhe disseram significavam, não? E apesar de ainda não ter tentado, apesar de ainda não ter encontrado a pessoa ideal para partilhar os desafios da parentalidade, já estava a sentir uma perda, bem lá no seu interior.

E dizia-me que é curioso como a vida pode mudar em poucos instantes - e que agora, só pensava em engravidar o mais cedo possível, para aproveitar as baixas probabilidades que tinha, antes que se esgotassem, definitivamente. 

 

A verdade é que a vida nos troca as voltas e as prioridades.  E o relógio biológico não pára e segue o curso que nos está destinado. Quantas de nós terão algum problema em engravidar quando decidirmos que está na altura? Provavelmente muitas. Neste momento estima-se que cerca de 20% dos casais a nível mundial têm dificuldade em ter um filho sem qualquer ajuda. Vamos adiando a maternidade porque nunca temos as "condições ideias" e a vida prega-nos partidas.

 

Noutras vezes, dá-nos a oportunidade de ainda irmos a tempo. 

 

Estamos pelo instagram, aqui.

 

 

06
Dez18

À noite, no hospital

Sofia Serrano

Captura de ecrã 2018-12-06, às 18.57.14.png

 

O que se passa num hospital à noite? Basicamente tudo e nada. Podemos percorrer os corredores silenciosos e sentir a tensão do espaço - aquele silêncio que antecede uma explosão de adrenalina, que surge sem aviso prévio.

E se num instante tudo parece estar sossegado, no segundo seguinte há um código vermelho e uma invasão de gente a cumprir o seu trabalho o mais rápido e eficazmente que sabem para que se possam salvar vidas.

Para que a grávida com o súbito descolamento de placenta e um bebé em sofrimento possam ter a melhor hipótese. 

Todos os segundos contam.

É preciso correr, de forma bem treinada, e pôr a funcionar a máquina bem oleada que parecia estar adormecida. Em instantes há luzes, um bailado que monta panos e instrumentos cirúrgicos, roupas e luvas e máscaras, o "ok" para começar. E tudo fica em suspenso até se ouvir um choro, inicialmente débil e depois mais intenso. Trocam-se olhares cumplices que dispensam palavras e todos continuam.

E tudo corre bem e volta o silêncio, e esta missão está cumprida.

Mas o hospital nunca dorme.

01
Dez18

Os obstetras também se enganam

Sofia Serrano

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Às vezes há falhas. Ninguém é perfeito. É perfeitamente possível alguém se enganar numa ecografia, na identificação do sexo do bebé. Entre outras coisas. Treinamos anos a fio, estudamos constantemente, mas há multiplos fatores que nos podem influenciar no nosso trabalho.

"Parece-me uma menina!", podemos dizer nós. E às tantas, na ecografia seguinte, o cordão umbilical que estava a tapar um "apêndice" importante mobilizou-se e afinal...é um menino. Nem sempre é fácil dar estas notícias - explicar que aquela menina com que falamos todas as noites na barriga é afinal um menino, mas ninguém tinha dado por isso. 

Há surpresas que afinal são bem recebidas, outras nem por isso.

Mas depois, há aquelas MEGA SURPRESAS.

 

Como a história daquela grávida que entra no meu consultório para a ecografia morfológica, às 20 semanas.

Gosto de fazer perguntas para perceber se tem tudo estado a correr bem, e de ir conversando com as pessoas. A gravidez, diz-me ela, tem estado a decorrer tranquilamente, mas o seu médico ainda não sabe se é menino ou menina - e o casal está muito ansioso por ter essa informação.

Começo o exame e fico momentaneamente baralhada. Reparam no meu ar confuso e reafirmam que lhe têm dito que está tudo bem com o bebé. "Não está?"

Volto a olhar para o ecrã . Tive uma noite tranquila, dormi bem , não estou cansada, o ecógrafo é bom. No entanto, podia jurar que estou a ver DOIS BEBÉS. 

Sim, são dois. Uma placenta, duas bolsas. Duas cabeças, 4 pernas, 4 braços. Não estou a imaginar. Mas os pais pensam que é só UM BEBÉ.

" Hum...acho que temos aqui uma pequena surpresa."

(aquele olhar de suspense dos progenitores)

"Bom...por algum motivo ainda ninguém tinha percebido mas...."

"Diga-me dra, é um menino???? Sim???"

"Sim! Na verdade é um menino! Ou melhor, são dois meninos! Parabéns! Vão ter gémeos verdadeiros, dois meninos!"

Aquele silêncio de choque.

Aquele momento em que eu continuo a olhar para o ecrã para me certificar mais uma vez que são dois, e que não sou eu que me estou a enganar - mas em simultaneo a pensar que poderia ter sido eu a falhar.

E mostro no ecrã as duas cebecinhas, lado a lado, como que a trocar confidências. A rirem em segredo por terem conseguido passar 20 semanas sem ninguém se ter apercebido.

"Ai valha-me Deus!" suspira a mãe, ainda a tentar interiorizar a notícia. "Então é por isso que tenho tanta fome! Vês, não estou nada gorda, são dois!".

 

E é isto. Temos de ver sempre o lado positivo das coisas.

 

O nosso instagram, aqui.

 

 

 

 

08
Nov18

O que importa é que venha com saúde?

Sofia Serrano

Sempre me lembro de ouvir esta frase, desde pequena, no que a grávidas diz respeito : "Não interessa se é menino ou menina, o que importa é que venha com saúde".

Faz parte do trabalho dos obstetras assegurar exatamente isso. Por isso, quando estou a fazer uma ecografia morfológica tenho uma ordem estabelecida na minha mente para avaliar o bebé de uma ponta à outra sem perder pitada, e poder dizer no final do exame aos pais que, pelo que podemos ver,  "está tudo bem". É sempre desta forma que eu espero terminar um exame, o que infelizmente, nem sempre acontece. Há pequenas alterações que provavelmente não serão nada importante e que poderão desaparecer com o crescimento do bebé, e depois há outras bastante graves, que podem mudar tudo. É um momento de muita responsabilidade e é preciso tempo para avaliar todos os pormenores - e mesmo assim, há situações que não conseguimos diagnosticar durante as ecografias.

 

 

Claro que depois há sempre aquela parte do "quer saber se é menino ou menina, ou prefere que seja surpresa?". Na realidade, estou sempre à espera do tal "o que importa é que venha com saúde". Mas o que tem acontecido cada vez mais frequentemente é este ser o ponto fulcral do exame. 

Isto para explicar que por estes dias, o cenário de destaque na ecografia tem sido o sexo do bebé.

 

 

Casais que querem tanto um menino que vão na quinta gravidez, e assim que lhes confirmo que é outra menina, já estão a fazer contas para saber quando podem engravidar outra vez - e tentar na próxima vez uma técnica matemática complicada que envolve idades dos pais, mês da conceção e mais alguma coisa que já não me recordo, para se assegurarem que o próximo bebé será do sexo masculino. Isto porque já tentaram a teoria dos alimentos ácidos, fases da lua e o calendário chinês e nada resultou.

 

Ou a grávida que vai na sexta gravidez e que me diz logo no início da ecografia que só lhe interessa saber que é uma menina, porque já tem cinco rapazes em casa e o seu sonho desde criança é ser mãe de uma menina. Mesmo sendo daqueles bebés que mostra claramente que é um rapaz na primeira imagem, prefiro demorar-me a avaliar tudo antes de lhe dar essa notícia. E tento enfatizar a parte do "esta tudo bem com o seu bebé" mas ela só ouve o "é um menino". Diz-me imeditamente que a seguir vai juntar uma quantia exorbitante de dinheiro para ir a outro país e poder optar por uma técnica de reprodução medicamente assistida que lhe permite escolher o sexo do bebé. Passam-me pela mente todos aqueles casais que tiveram de ouvir más noticias em relação à saude do seu bebé, e volto a reforçar que o importante é que tem um bebé saudável. Mas ela continua focada no seu sonho de ser mãe de uma menina e não me ouve.

 

Na ecografia seguinte, volto a dar a nótícia errada - é uma menina, e o casal queria muito um menino. É o primeiro filho, mas não se imaginam com uma menina. Há lágrimas até. Volto a insistir no "muitos parabéns, têm um bebé saudável", mas não me ouvem.

 

Quando saem do consultório começo a achar que deviamos ter um livro de trocas de bebés - porque no final do dia, há espaço e amor para todos os bebés, mas parece que para todos estarem felizes seria preciso trocar as famílias.

E eu continuo a achar que o mais importante é que venham com saúde.

 

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02
Nov18

Das coisas boas da medicina

Sofia Serrano

Muita gente acha que os médicos têm de ser frios. Duros como pedra. Que aprendem a não sentir e que não têm qualquer ligação com os pacientes. Que é isto que nos ensinam na faculdade: a manter a distancia. Que só assim conseguiremos ser bons no que fazemos, porque nos focamos no diagnóstico e no tratamento, e não nos distraímos com a pessoa.

 

Na realidade, das coisas que mais gosto na medicina, é esta oportunidade de conhecer as pessoas.

Sim, tenho de fazer ecografias, saber se há risco de parto pré-termo e identificar sem pestanejar uma pré-eclâmpsia. Mas bolas, é maravilhoso ver um casal chorar de felicidade por ter finalmente um teste de gravidez positivo ao fim de muitos anos de batalha por um filho. É extraordinário poder observar o crescimento de um bebé nas ecografias, ver a felicidade da mãe quando sente os primeiros pontapés. Fico sem palavras perante a emoção dos pais ao pegar pela primeira vez no filho recém-nascido.

 

E é impossível não partilhar lágrimas e sorrisos - porque as emoções, os sentimentos, o caminho, são partilhados pelo médico e pelo paciente. Não consigo, ao fim de nove meses de consultas e de um parto, não ver as minhas pacientes como minhas amigas - e aquele abraço sentido que me dão na consulta do pós-parto faz-me sentir que é por isto que vale a pena ser médico. Pelas pessoas. Que passam a ser parte de mim. Porque eu também passei a fazer parte da história delas.

 

É a partilha que faz sentido e que nos torna humanos.

 

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Bem-vindos!

Olá! Sou a M. Sofia Serrano S., Ginecologista-Obstetra, mãe de dois miúdos maravilhosos, apaixonada por escrita. Adoro café, canela e chocolate e aproveitar as coisas boas da vida! Neste blog partilho as nossas aventuras em família, os desafios de ser mãe, dicas para as grávidas e tudo o que é fundamental saber sobre a saúde da mulher. Também conto algumas das aventuras dos hospitais e partilho um bocadinho deste mundo da medicina. Fiquem por aqui! Contactos: msofiaserrano@gmail.com

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