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Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

Conversas de uma mãe, que é médica Ginecologista/Obstetra e adora escrever. Com sabor a chocolate.

Confissões de uma médica: e a Sofia, onde anda?

  Hoje de madrugada estava a lavar a cara na casa de banho do hospital, depois de uma urgência de 24 horas. Reparei nas olheiras e olhos cansados, no cabelo desgrenhado. Zero glamour (raramente uso maquilhagem no trabalho e muito menos colares, anéis e pulseiras porque nunca sei quando é preciso esfregar as mãos e os braços até ao cotovelo com uma daquelas esponjas desinfectantes e entrar numa sala de bloco operatório para uma cirurgia urgente ou um parto).  Com ar de quem (...)

Confissões de uma médica: os verdadeiros heróis

  Sou uma médica chata. Daquelas que repete muitas vezes a mesma coisa. Em particular, quando chegamos ao 3º trimestre de gravidez, faço questão em repetir em todas as consultas antes da grávida/casal/família sair a mesma lengalenga:   "Por favor estejam atentos aos movimentos do bebé - é a maneira de sabermos que ele está bem. E se houver perda de sangue ou de líquido, contrações de 10 em 10 minutos durante 1 hora, dores de cabeça fortes, alterações da visão, inchaço (...)

As verdadeiras razões porque os médicos se atrasam nas consultas

  Gosto de chegar a horas a todo o lado. Aliás, sempre tentei chegar um bocadinho antes do combinado aos meus compromissos. Gosto de ter tudo organizado, e acho que a maternidade ainda fez com que viva o meu dia a dia com um horário mais apertado e sem grande margem de manobra entre escola, trabalho, refeições, ginásio, futebol, ginástica e afins. Mas sei que há coisas que não consigo controlar. E aprendi com o tempo que tenho de ser flexível e adaptar-me, para poder ser a (...)

Confissões de uma médica: quando a vida nos surpreende

Uma urgência, a altas horas da noite. Daquelas urgências caóticas em que o trabalho não pára. Chamo a próxima paciente, reparo pela ficha que é uma adolescente de 15 anos. Vem com a mãe, encolhida, com as mãos na barriga. Não olha para mim, mas percebo que não está bem. A mãe toma a palavra e diz-me que a filha está desde o jantar com fortes dores de barriga.  Que tem andado muito inchada, que pode ser uma apendicite. Não melhorou com os analgésicos que lhe deu. Está (...)

Confissões de uma médica: as escolhas que fazemos por amor

Na primeira consulta vieram os dois. Estavam a tentar uma gravidez há 5 anos. Tinha chegado a altura de pedir ajuda, disseram-me. Conversamos sobre ambos e pedi uma série de exames, o habitual quando queremos perceber o que se passa para não se conseguir o filho desejado. Na consulta seguinte, ela veio sozinha. Todas as consultas são importantes, mas ele não tinha mesmo conseguido estar presente. Estive a rever os exames dela e parecia tudo bem. Depois ela tirou o envelope com os (...)

Sobre as voltas que a vida dá

  Era a primeira consulta comigo. Uma mulher jovem, bonita, com menos de 30 anos. Primeiro, disse-me que estava ali para uma consulta de ginecologia de rotina. Mas à medida que lhe fui fazendo perguntas para contruir a sua história clínica, percebi que o motivo não era esse.   Foi então que ela me contou o que a estava a preocupar. Estava a estudar, na faculdade. A família não tinha grandes posses e ela tinha de trabalhar em simultaneo com o estudo para ajudar em casa, o que (...)

À noite, no hospital

  O que se passa num hospital à noite? Basicamente tudo e nada. Podemos percorrer os corredores silenciosos e sentir a tensão do espaço - aquele silêncio que antecede uma explosão de adrenalina, que surge sem aviso prévio. E se num instante tudo parece estar sossegado, no segundo seguinte há um código vermelho e uma invasão de gente a cumprir o seu trabalho o mais rápido e eficazmente que sabem para que se possam salvar vidas. Para que a grávida com o súbito descolamento de (...)

Os obstetras também se enganam

  Às vezes há falhas. Ninguém é perfeito. É perfeitamente possível alguém se enganar numa ecografia, na identificação do sexo do bebé. Entre outras coisas. Treinamos anos a fio, estudamos constantemente, mas há multiplos fatores que nos podem influenciar no nosso trabalho. "Parece-me uma menina!", podemos dizer nós. E às tantas, na ecografia seguinte, o cordão umbilical que estava a tapar um "apêndice" importante mobilizou-se e afinal...é um menino. Nem sempre é fácil (...)

O que importa é que venha com saúde?

Sempre me lembro de ouvir esta frase, desde pequena, no que a grávidas diz respeito : "Não interessa se é menino ou menina, o que importa é que venha com saúde". Faz parte do trabalho dos obstetras assegurar exatamente isso. Por isso, quando estou a fazer uma ecografia morfológica tenho uma ordem estabelecida na minha mente para avaliar o bebé de uma ponta à outra sem perder pitada, e poder dizer no final do exame aos pais que, pelo que podemos ver,  "está tudo bem". É sempre (...)

Das coisas boas da medicina

Muita gente acha que os médicos têm de ser frios. Duros como pedra. Que aprendem a não sentir e que não têm qualquer ligação com os pacientes. Que é isto que nos ensinam na faculdade: a manter a distancia. Que só assim conseguiremos ser bons no que fazemos, porque nos focamos no diagnóstico e no tratamento, e não nos distraímos com a pessoa.   Na realidade, das coisas que mais gosto na medicina, é esta oportunidade de conhecer as pessoas. Sim, tenho de fazer ecografias, saber (...)